quinta-feira, 19 de junho de 2008

a separação como um ato de amor...



A separação como um ato de amor


Se o que foi bom ainda está fresquinho na memória afetiva,

é mais fácil transformar o casamento

numa outra relação de amor
É sabida a dor que advém de qualquer separação,

ainda mais da separação de duas pessoas

que se amaram muito

e que acreditaram um dia na eternidade deste sentimento.

A dor-de-cotovelo corrói milhares de corações

de segunda a domingo - principalmente aos domingos,

quando quase nada nos distrai de nós mesmos

- e a maioria das lágrimas que escorrem é de saudade

e de vontade de rebobinar os dias,

viver de novo as alegrias perdidas.
Acostumada com esta visão dramática da ruptura,

foi com surpresa e encantamento que li uma descrição

de separação que veio ao encontro do que penso sobre o assunto,

e que é uma avaliação mais confortante,

ao menos para aqueles que não se contentam

em reprisar comportamentos padrões.

Está no livro Nas tuas mãos,

da portuguesa Inês Pedrosa.

"Provavelmente só se separam os que levam

a infecção do outro até aos limites da autenticidade,

os que têm coragem de se olhar nos olhos

e descobrir que o amor de ontem merece mais

do que o conforto dos hábitos

e o conformismo da complementaridade".
Ela continua:
"A separação pode ser o ato de absoluta

e radical união,

a ligação para a eternidade de dois seres

que um dia se amaram demasiado

para poderem amar-se de outra maneira,

pequena e mansa, quase vegetal".
Calou fundo em mim esta declaração,

porque sempre considerei que a separação

de duas pessoas precisa acontecer

antes do esfacelamento do amor,

antes de iniciarem as brigas,

antes da falta de respeito assumir o comando.

É tão difícil a decisão de separar que vamos protelando,

protelando, e nesta passagem de tempo

se perdem as recordações mais belas e intensas.

A mágoa vai ganhando espaço,

uma mágoa que nem é pelo outro,

mas por si mesmo, a mágoa de reconhecer-se covarde.

E então as discussões se intensificam e quando a separação vem,

não há mais onde se segurar,

o casal não tem mais vontade de se ver,

de conversar, querem distância absoluta,

e aí configura-se o desastre:

a sensação de que nada valeu.

Esquece-se o que houve de bom entre os dois.


Se o que foi bom ainda está fresquinho na memória afetiva,

é mais fácil transformar o casamento numa outra relação de amor,

numa relação de afastamento parcial, não total.

Se o casal percebe que está caminhando para o fim,

mas ainda não chegou ao momento crítico

- o de tornarem-se insuportavelmente amargos -

talvez seja uma boa alternativa terminar

antes de um confronto agressivo.

Ganha-se tempo para reestruturar a vida

e ainda preserva-se a amizade e o carinho daquele

que foi tão importante.

Foi, não.

Ainda é.
"Só nós dois sabemos que não se trata de sucesso ou fracasso.

Só nós dois sabemos que o que se sente não se trata

- e é em nome deste intratável que um dia nos fez estremecer

que agora nos separamos.

Para lá da dilaceração dos dias,

dos livros, discos e filmes que nos coloriram a vida,

encontramo-nos agora juntos na violência do sofrimento,

na ausência um do outro

como já não nos lembrávamos de ter estado em presença.

É uma forma de amor inviável, que, por isso mesmo, não tem fim."
É um livro lindo que fala sobre o amor eterno

em suas mais variadas formas.

Um alento para aqueles - poucos -

que respeitam muito mais os sentimentos do que as convenções.

Martha Medeiros

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